A ERA ROBÓTICA NO TRANSPLANTE CAPILAR: UMA NOTA DE ESCLARECIMENTO AOS PACIENTES




É sempre fascinante acompanhar as novidades e os avanços tecnológicos em medicina. Com incrível rapidez, novas abordagens e novos instrumentos aparecem, causando mudanças significativas nas diferentes especialidades médicas. Desde a época dos tufos e cabelos de boneca (até os anos 1990), passando pelo preparo microscópico das unidades foliculares, e chegando à técnica de extração individual destas unidades (FUE), a cirurgia da restauração capilar vêm buscando resultados de absoluta naturalidade e boa densidade. Hoje, isso é uma realidade inconteste, refletido no alto grau de satisfação da grande maioria de nossos pacientes.

Com o estabelecimento da técnica FUE (extração das unidades foliculares, sigla em inglês follicular unit extraction) como procedimento válido para transplantar unidades foliculares (Ufs), nada mais natural que um grupo de pesquisadores (médicos, engenheiros, desenvolvedores de software entre outros) inventasse uma máquina robótica, para realizar uma parte considerada mais mecânica e tediosa da operação: a remoção das unidades foliculares.

O sistema atualmente comercializado é produto de longos anos de incremento de conhecimento, resultando numa sofisticada máquina com software muito complexo. Funciona da seguinte forma: um programa computadorizado faz um "scanning" da área doadora do paciente e identifica as Ufs a serem perfuradas; o cirurgião então dá um "enter", aceitando o planejamento. Um braço mecânico percorre a área designada, perfurando as Ufs que foram selecionadas com um punch de 1 mm. Após esta passagem, o cirurgião interrompe o processo e passa a colher as Ufs. Em seguida, outra área é preparada e o robô é novamente acionado.

Passamos, então, à algumas perguntas relevantes:


P: O robô realiza todo o procedimento cirúrgico?
R: Não, na atual geração este sistema robótico é útil somente para fazer as perfurações das Ufs. A remoção das Ufs deve ser feita pelo cirurgião (ou seu assistente). Os demais passos da operação (limpeza das Ufs no microscópio, desenho da linha anterior, colocação das Ufs etc.) são, evidentemente realizadas pelo cirurgião e sua equipe.

P: Então é necessário ter a presença do cirurgião?
R: Certamente que sim: o aparelho tem que ser constantemente calibrado e vigiado pelo operador e supervisionado pelo cirurgião. Em nenhum momento o robô pode ser acionado sem a presença do médico, que é o único responsável pelo paciente.

P: Com a utilização do robô, existe um ganho na qualidade das perfurações? E quanto ao índice de transecção das Ufs?
R: Não. Por questões mecânicas, as perfurações realizadas pela máquina robótica são até um pouco maiores do que aquelas realizadas pela mão do cirurgião. O índice de transecção é semelhante ao atingido pelo cirurgião experiente utilizando aparelhos tradicionais (mecânicos ou manuais). Comenta-se inclusive que as unidades ficam um pouco mais finas quando extraídas pelo robô, o que teoricamente pode significar uma maior vulnerabilidade dos folículos. Por fim, pode ser possível uma maior rapidez de perfuração pelo robô, mas este fator não é decisivo para o resultado da cirurgia.

P: O robô consegue retirar folículos de toda a cabeça? Existem limitações?
R: Por questões do posicionamento da cabeça do paciente, a retirada nas laterais fica dificultada pelo sistema robótico. Também é necessário raspar toda a cabeça do paciente submetido a este procedimento, o que não acontece quando o cirurgião usa instrumental pessoal (ie. motor ou manual). Tampouco é possível usar o robô para remover Ufs de outras partes do corpo (barba, região torácica etc.) que em determinadas situações pode ser útil.

P: Os custos do procedimento são os mesmos, utilizando o sistema robótico ou pela técnica FUE simples?
R: A princípio, a cirurgia terá um custo significativamente maior com o aparelho computadorizado.


Comentário final: é consenso entre os especialistas em transplante capilar que o sistema robótico pode, no máximo, facilitar o trabalho do cirurgião. Em nenhum momento, a máquina deve substituir o cirurgião, ou mesmo funcionar sem a presença dele. Também não foram identificados quaisquer benefícios do uso do aparelho, quando comparado à mão do médico com experiência. A ISHRS (a sociedade internacional de cirurgia capilar) colocou um aviso na primeira página de seu site (http://www.ishrs.org/article/consumer-alert) alertando seus pacientes que a responsabilidade do ato cirúrgico é exclusivamente do cirurgião, e que nenhuma máquina substitui o conhecimento técnico e experiência clínica, que levam anos para serem adquiridos. Procure saber se seu cirurgião é membro de alguma destas sociedades (SBCP, SBD ou ABCRC) e está habilitado para realizar esta cirurgia.


Dr. Henrique N Radwanski
Regente do Capítulo de Restauração Capilar da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
www2.cirurgiaplastica.org.br